Encontro noturno de pipas ilumina céu de Santana

Sabadão, 20h. O programa da zona norte de São Paulo era ver, impressionar-se e aplaudir estranhos objetos voadores iluminados, um maior que o outro, um mais diferente que o outro. O evento, grátis, juntou cerca de mil pessoas no Clube Escola Jardim São Paulo, na região do bairro Santana. Foi a primeira edição do Kite In Night – batizado em inglês, talvez para chamar mais a atenção.

“Pipa é alegria, pipa é um divertimento sadio”, dizia o locutor, animando o público, em claro português. O palco do evento também não podia ser mais brasileiro: o campinho sem grama do clube, no famoso estilo “terrão”. A essa hora, a criançada já estava ansiosa para ver as pipas no céu. Paulo Henrique da Silva, de 8 anos, já reclamava para a mãe que estava demorando muito, “por quê?”, e fazia desenhos com os dedos no chão de terra. Eles foram de Brasilândia, também na zona norte, até lá, de ônibus, só para ver as pipas.

Mas ainda faltava um ok oficial, do secretário municipal de Esportes, Lazer e Recreação, Bebetto Haddad. Discursou e… “Que tenhamos bons ventos”, encerrou. “Ufa”, respirava a criançada. Silvio Voce, especialista em pipas e organizador do evento, deu a ordem para a primeira revoada. Refletores se apagaram. Olhinhos das crianças brilharam. Não só: adultos também ficaram boquiabertos com o festival de luzes, cores e tamanhos.

No ar. Quinze minutos para a primeira categoria, “beleza voadora”. Seis participantes inscritos, de vários bairros da cidade. “Nesta, avaliamos não somente a iluminação, mas o apuro na confecção da pipa”, explica Voce. O vento não ajuda muito – será que a prece do secretário não foi ouvida? -, mas os objetos voadores conseguem ficar alguns minutos no ar.

O menino Leonardo Hernandes do Quental, de 12 anos, se empolga: fica até com vontade de brincar também. “Essa serpente é a mais bonita”, diz, apontando para uma pipa comprida, cheia de módulos balançantes e lampadinhas, chamada de dragão. “Eu gosto muito de pipas.”

É hora da segunda categoria: “criatividade”. “Agora levamos em conta a inovação mesmo. Por exemplo: se a pipa se parece com algum objeto”, esclarece Voce. Quinze minutos para os nove inscritos exibirem suas criações. Sem dúvida, a etapa mais divertida: tem disco voador, cadeira voadora, uma abóbora gigante, réplica da máscara do Mister M., e até um relógio – cujos ponteiros, iluminados, giravam com o vento.

Nova pausa, para o terror dos ouvidos do público. A trilha sonora, cheia de pagodes, sobe o volume. Mais cinco minutos e chega a vez dos cinco inscritos para a última categoria: “destaques”. Como assim? “Aqui avaliamos as pipas que mais impressionam, que mais animam a plateia”, diz Voce. Ah, bom.

Depois de mais música, mais gritos animados do locutor – que arrisca algumas piadinhas trash, sem conseguir arrancar risos da multidão – chega a hora da revoada geral. Quem não viu, que veja agora: todas as pipas, das três categorias, juntas no céu.

Aí chega a vez de anunciar os vencedores. Gente que levou medalha e brindes para casa – de bicicletas a aparelhos de DVD. Caso do dono da pipa-relógio, por exemplo, Ghutemberg da Silva, de 40 anos. Ele mora em Santo Amaro, na zona sul, é tesoureiro de uma escola e levou dois dias para fazer seu objeto voador. “Gastei uns R$ 50”, conta.

O mesmo sucesso não foi alcançado pelo criador da pipa do Mister M., o eletricista Ricardo Dospir, de 38 anos. Sem prêmios, voltou para casa, no Ipiranga, na zona sul, de mãos abanando. Mas valeu, a vida é assim mesmo… “Participo de campeonatos desde 1995”, comenta. O organizador Voce espera que mais festivais noturnos aconteçam por aqui. “Na Europa, isso existe desde os anos 1970. Não sei por que nunca tivemos aqui antes.”

Fonte: O Estado de S. Paulo




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